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PRODUTORA

Boi de Lágrimas

Tambores e temores de São Luís

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​É

no Maranhão que vive e produz um dos cineastas mais autoralmente ambiciosos do Brasil. Frederico Machado, para além de suas atividades de distribuidor e dinamizador da cena cinematográfica, vem construindo uma carreira que deriva progressivamente para o experi

mental. Entre O exercício do caos, seu primeiro longa, e o média-metragem Boi de lágrimas, desenha-se uma curva fechada no rumo do chamado cinema de invenção.

 

Boi de lágrimas talvez deva ser tomado como um ponto fora da curva, pois integra o projeto “Filme Político”, compartilhado por Frederico, Cristiano Burlan, Taciano Valério e Dellani Lima. A ideia era responder com inconformidade (também estética) aos ataques ao estado de direito no país em 2017. Os quatro curtas desses diretores compõem o longa Depois da farsa. Boi de lágrimas é um desenvolvimento do curta de Frederico para a duração de 53 minutos.

 

Abrindo mão desta vez dos poemas de seu pai, Nauro Machado, Frederico elimina toda oralidade em troca de um ensaio músico-visual. Cinco pessoas convivem em espaços que parecem ora comuns, ora dissociados. Há um tocador de tambor no Bumba-meu-Boi; sua filha, dançarina do Boi, que se diverte com o namorado e participa de manifestações contra a reforma trabalhista de Temer; um outro homem de perfil indefinido e sua mulher que se contorcem num doloroso trabalho de parto.

 

Não se pode extrair sequer um fio de narrativa das interações mudas entre esses personagens. Eles estão ali como totens de uma inquietação difusa, uma espécie de temor que emana entre o psicológico e o social. À introspecção de seus olhares, e ao germe ritualístico de seus gestos, se opõem as referências históricas e políticas espalhadas pelo filme. Na abertura, ouvimos trechos de discursos de Hitler, Mussolini, Che Guevara, Lula e outros. Excertos de filmes soviéticos, entre os quais O Encouraçado Potemkin, e do glauberiano Maranhão 66, fazem rimas com a ação contemporânea.

 

Ao fim e ao cabo, ficamos com a sensação de que materiais dispersos foram reunidos em busca de um sentido que tende à abstração. Carnaval/fisicalidade/sensualidade buscam uma relação dialética com política/indignação/explosões. As massas nas ruas (na TV, nos filmes) se equiparam às hordas de formigas que povoam o prólogo do filme, como a sinalizar que estamos falando de comunidade, trabalho e luta. O parto que finalmente se conclui insinua o nascimento de um monstro, algo que a realidade brasileira comprovaria em 2018.

 

Machado coloca a expressão músico-visual acima de qualquer outro interesse em Boi de lágrimas. As paisagens sonoras dividem por igual com as imagens o domínio da nossa percepção. Sempre elegantes, inquietantes e ricas em sugestões, as construções visuais – que às vezes me lembraram cenas de Limite – magnetizam a nossa atenção, mesmo quando os significados nos escapam.

Ainda ali, resta o profundo desejo de cinema do diretor.

Carlos Alberto Mattos

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