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O Signo das Tetas
O sensualismo panteísta não consegue esconder sua solidão. Ainda que seu caminho seja permeado de encontros, estes são transitórios, breves, passageiros. São pequenos vagalumes que brilham e que depois se apagam. A água é também de um choro. Ele caminha só. Quase sempre em silêncio.

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O signo das tetas, segundo longa-metragem de Frederico Machado, se inicia com uma cartela com um poema de Nauro Machado, pai do realizador. O poema é uma apresentação bastante coerente ao universo do filme por alguns motivos principais. O primeiro é que o poema introduz a água como elemento vital em torno do qual giram vários pontos do filme. O segundo é que o poema oferece ao espectador um certo clima sensorial que será desenvolvido ao longo de todo o filme.
De fato, o projeto cinematográfico de O signo das tetas é muito mais próximo da poesia do que da prosa, ou ainda, um filme curioso pelo percurso existencial de um personagem que desperta no espectador um desejo de mergulho no interior de um personagem opaco, cujas motivações não são totalmente claras ou perceptíveis para o espectador. Antes de ser uma narrativa em que acompanhamos (e torcemos por) um personagem que vai atingir ou não um objetivo previamente estabelecido, podemos pensar que a função do cinema – e da arte – é a de ampliar a nossa experiência
sensível sobre o mundo e sobre as coisas.
O humanismo do projeto de O signo das tetas é seu desejo pela experiência do mundo. A narrativa, portanto, não é teleológica, mas mais próxima talvez da fenomenologia. Acompanhamos esse
personagem que se deixa perder pelo caminho, pois a vida segue – queiramos ou não – sempre para a frente. É possível dizer que O signo das tetas, como exemplar de uma linhagem do cinema contemporâneo, acompanha a trajetória de um personagem que segue por um caminho, mas que o mais importante não é necessariamente o seu destino e suas motivações, mas, justamente,
o gosto pelo percurso, a insistência na trajetória como destino. Não há, portanto, desejo de progresso mas um gosto pelo instantâneo, pelo presente, pelos pequenos grãos de beleza que, mesmo que
transitórios, quase como pequenos vagalumes diante da escuridão da noite, insistem em relampejar. Ou como sugere um título de um filme de Jonas Mekas, "enquanto eu caminhava adiante, vi
pequenos lampejos de beleza." O projeto de percurso poético de O signo das tetas o aproxima do cinema do Leste Europeu, de cineastas como Andrei Tarkovski, Sharunas Bartas, Omirbaev, Otar
Iosseliani, mas incorporando as próprias referências pessoais do realizador, além do universo místico e cultural do Nordeste brasileiro, em especial do Maranhão.
Em seu percurso, esse personagem (e o filme junto com ele) mergulha nesses momentos de imersão sensorial, buscando um certo sensualismo, e uma integração com a natureza. Existe uma busca que vai além da materialidade dos elementos, mas uma certa metafísica, um desejo de algo que vá além da imagem em si. Essa metafísica, aliada a um olhar muito específico para a natureza, me permite aproximar o filme de uma certa experiência religiosa. Com isso, entendo que o filme está mais próximo de um sentido de religiosidade do que de uma religião. E que se aproxima do panteísmo.
O signo das tetas me faz despertar uma aproximação com o gesto da filosofia antiga, pela sua aposta numa relação com o mundo prévia à formação do cartesianismo. O interesse pela imersão no espírito humano como produto mais próximo da experiência e menos da razão. Com isso, me lembro, por exemplo, do sensualismo de Protágoras, que dizia que "o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são." Para o filósofo grego, a verdade deve ser buscada apenas a partir da experiência pessoal. Mas para Protágoras, o caminho moral a ser seguido deve ser o do ascetismo. Me parece que nesse ponto, Machado diverge de Protágoras, pois seu filme busca um direto mergulho nas sensações do mundo como sinal de encontro, dado o seu gosto pelo mundano, pela pele das mulheres, pelo gozo.
O signo das tetas está interessado não somente no movimento de seu protagonista, mas na interação entre o percurso do personagem com o próprio movimento do mundo. Busco compreender, portanto, o filme nas suas relações de proximidade entre o caminho do protagonista e o caminho do próprio filme, a partir de suas escolhas: escolhas em direção à curiosidade pelo mundo, a um clima de poesia.
A água surge como elemento central que aproxima a natureza (o mundo) desse personagem. Ela surge de diversas formas: como rio, como chuva, como urina, como sangue, como líquido fetal. Como choro. Como leite e como sêmen, tal como sugerido no plano final. É interessante pensarmos na água como elemento central desse filme, em como ele rompe com as representações visuais mais tradicionais do Nordeste brasileiro, em geral associadas com a seca e com a miséria. A paisagem do interior de um Nordeste ribeirinho é vista de outra forma pelas lentes de Machado, que também exerce o papel de diretor de fotografia e câmera.
Para tanto, o filme de Frederico Machado não busca uma experiência mimética de representação do real mas uma espécie de visão interior. O caminho do protagonista é oposto à extrema ordem da lógica e da razão ao guiar os seus passos. A comunhão com a natureza atinge sua máxima expressão no plano final, após os créditos de encerramento. Nele, vemos o personagem deitado sobre o rio, como se seu próprio corpo se transformasse num barco, flutuando por sobre as águas do rio. Esse plano integra, portanto, o corpo do homem com o próprio corpo da natureza, fundindo-o à paisagem como elemento orgânico. De outra forma, podemos associar o plano com a própria relação do feto com o corpo da
mãe, envolvo em água. Ou ainda, num plano cinematográfico, podemos associar esse enquandramento com um momento singular no cinema brasileiro, com Limite, de Mário Peixoto, outro filme-irmão que busca um cinema mais próximo da poesia do que do tom narrativo.
Ao final, não sabemos se o personagem chegou de fato ao seu destino. Como falamos anteriormente, o destino final do caminho pouco importa diante da experiência de sua própria trajetória. O personagem caminha sem mapa ou bússula, ou ainda, é como se o filme avançasse mesmo sem roteiro. Fico pensando que talvez esse personagem tenha encontrado o seu caminho justamente por ter se deixado perder enquanto caminhava. Como uma vez disse Straub sobre o cinema de Griffith, só é possível filmarmos a revolução se ainda conseguirmos sentir o vento que balança a copa das árvores.
No entanto, o sensualismo panteísta de O signo das tetas não consegue esconder sua solidão. Ainda que seu caminho seja permeado de encontros, estes são transitórios, breves, passageiros. São pequenos vagalumes que brilham e que depois se apagam. A água é também de um choro. Ele caminha só. Quase sempre em silêncio. Num determinado momento, o personagem fala que "a
tristeza é quase como uma coceira, a gente evita de falar pra coçar menos." Há algo que falta, uma certa contenção, uma dor que não consegue ser expressa pelas palavras, nem mesmo pelo poema.
Associo essa solidão ao próprio percurso do cavaleiro errante, já há muito presente, das narrativas da Odisseia a Dom Quixote. Ou à tradição dos poetas andarilhos, tal qual o próprio Nauro Machado é representado, logo no começo do filme. Mas talvez haja algo de pessoal ali. Penso no gesto em fazer esse filme no Maranhão, Estado com extremas desigualdades sociais e que apenas há pouco tempo vem se engajando num processo de descoberta da realização cinematográfica. O signo das tetas é, em
muitas medidas, um filme-ilha no cinema brasileiro, e em muitas medidas ressoa sua candente solidão.
